*Prof: Felipe Aquino
O episódio misterioso da
Transfiguração de Jesus sobre um monte elevado, o Tabor, diante de três
testemunhas escolhidas por ele: Pedro, Tiago e João, se situa no contexto a
partir do dia
em que Pedro confessou diante dos
Apóstolos que Jesus é o Cristo, “o Filho de Deus vivo”. Esta confissão cristã
aparece também na exclamação do centurião diante de Jesus na cruz:
“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39), pois somente no
Mistério Pascal o cristão pode entender o pleno significado do título “Filho de
Deus”.
A partir desta revelação de Pedro,
inspirado pelo Pai, Jesus, diz S. Mateus, “começou a mostrar a seus discípulos
que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse… que fosse morto e
ressurgisse ao terceiro dia” (Mt 16,21). Pedro rechaça este anúncio, os demais
também não o compreendem, mas Jesus mostra a eles que afastá-lo do cálice da
Paixão, que ele deveria beber, era ser movido por Satanás.
O Evangelho segundo S. Lucas destaca
a ação do Espírito Santo e o sentido da oração no ministério de Cristo. Jesus
ora antes dos momentos decisivos de sua missão: antes de o Pai dar testemunho
dele por ocasião do Batismo e também antes da Transfiguração, e antes de
realizar por sua Paixão o plano de amor do Pai.
O rosto e as vestes de Jesus
tornam-se fulgurantes de luz, Moisés e Elias aparecem, e é importante notar que
o evangelista destaca sobre o que eles falavam: “de sua partida que iria se
consumar em Jerusalém” (Lc 9,31). Uma nuvem os cobre e uma voz do céu diz:
“Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o” (Lc 9,35). A nuvem e a luz
são dois símbolos inseparáveis nas manifestações do Espírito Santo. Desde as
manifestações de Deus (teofanias) do Antigo Testamento, a Nuvem, ora escura,
ora luminosa, revela o Deus vivo e salvador, escondendo a transcendência de sua
Glória: com Moisés sobre a montanha do Sinai, na Tenda de Reunião e durante a
caminhada no deserto; com Salomão por ocasião da dedicação do
Templo.
Na Transfiguração a Trindade inteira
se manifesta: o Pai, na voz; o Filho, no homem; o Espírito, na nuvem clara. E
Jesus mostra sua glória divina, confirmando, assim, a confissão de Pedro.
Mostra também que, para “entrar em sua glória” (Lc 24,26), deve passar pela
Cruz
em Jerusalém. Moisés e Elias haviam
visto a glória de Deus sobre a Montanha; a Lei e os profetas tinham anunciado
os sofrimentos do Messias. Fica claro que a Paixão de Jesus é sem dúvida a
vontade do Pai: o Filho age como servo de Deus.
A rica liturgia bizantina assim reza
na festa da Transfiguração: “Vós vos transfigurastes na montanha e, porquanto
eram capazes, vossos discípulos contemplaram vossa Glória, Cristo Deus, para
que, quando vos vissem crucificado, compreendessem que vossa Paixão era
voluntária e anunciassem ao mundo que vós sois verdadeiramente a irradiação do
Pai.”
No limiar da vida pública de Jesus
temos o seu Batismo; no limiar da Páscoa, temos a sua Transfiguração. Pelo
Batismo de Jesus foi manifestado o mistério da primeira regeneração: o nosso
Batismo; já a Transfiguração mostra a nossa própria ressurreição.
Desde já participamos da Ressurreição do Senhor pelo Espírito Santo que
age nos sacramentos da Igreja. A Transfiguração dá-nos um antegozo da vinda
gloriosa do Cristo, como disse S. Paulo, ” Ele vai transfigurar nosso
corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso” (Fl 3,21). Mas ela nos
lembra também que com Jesus “é preciso passarmos por muitas tribulações para
entrarmos no Reino de Deus” (At 14,22). Por isso, como Cristo, o cristão não
deve temer o sofrimento.
Unidos a Cristo pelo Batismo,
já participamos realmente na vida celeste de Cristo ressuscitado,
mas esta vida permanece “escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). “Com ele nos
ressuscitou e fez-nos sentar nos céus,
em Cristo Jesus” (Ef 2,6). Nutridos
com seu Corpo na Eucaristia, já pertencemos ao Corpo de Cristo. Quando
ressuscitarmos, no último dia, nós também seremos “manifestados com Ele cheios
de glória” (Cl 3,3).
Santo Agostinho nos ensina que:
“Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo sobre a
Montanha. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora Ele
mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser
desprezado, crucificado na terra. A Vida desce para fazer-se matar; o Pão desce
para ter fome; o Caminho desce para cansar-se da caminhada; a Fonte desce para
ter sede; e tu recusas sofrer?” (Sermão 78,6).
Assim, pela Transfiguração Jesus
preparou os discípulos para não se escandalizarem com a sua Paixão e morte na
Cruz, o que para eles foi um trauma e um grande desafio; mostrou-lhes a Sua
glória e divindade; e deu-lhes conhecer um antegozo do Céu. Mas para isso, como
Ele, temos que passar pelas provações deste mundo, sempre ajudados pelas
consolações de Deus.
FONTE: Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br

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