*Gilvan Melo
Conforme inspiração primeira, daremos continuidade a temas relacionados ao tempo litúrgico da quaresma. Hoje refletiremos sobre o sentido do sofrimento. Para aqueles que se afogam na dor ou para aqueles que dela fogem, permita-me afirmar: mesmo diante da dor, podemos encontrar um sentido. E não sou o primeiro a compartilhar desta ideia. “Sofrer é transformar-se” dizia São Tomaz de Aquino. “A maior alegria é quando somos caluniados, injuriados, e mesmo assim, louvamos a Deus” afirmou São Francisco de Assis.
O próprio Jesus aceitou o sofrimento da cruz e as injúrias dos homens como um caminho necessário à salvação da humanidade. Foi esta a condição do sofrimento de Cristo: transcender a dor, através do Amor. Não se trata de uma apologia ao sofrimento, pois em muitos momentos Ele – Jesus – baniu ou minimizou o sofrimento de muitos: cegos, paralíticos, angustiados, presos, desolados. Como entender, então, a medida do sofrimento? Quando aceitá-lo e quando lutar contra ele?
Mais uma vez recorrerei à logoterapia – a psicoterapia do sentido da vida. Viktor Frankl, que viveu três anos em campos de concentração construídos pela Alemanha Nazista de Adolf Hitler, que perdeu de uma só vez seus pais, irmãos e mulher, apenas por serem judeus, e que sendo psiquiatra famoso à época, foi reduzido ao prisioneiro de número 119.104, jamais se resignou, mas conseguiu “ser íntegro dentro da dor.” Para ele “é pela maneira de suportar o sofrimento que descobrimos as possibilidades de realização.” Ainda que seja negado o nosso credo, que seja abalada a nossa vocação e missão. Ainda que nos separemos de quem amamos, e, principalmente, ainda que nos encontremos numa situação – limite, quais sejam uma doença incurável ou a certeza da morte, mesmo assim, é possível encontrar um “para quê” viver.
Entretanto, o mundo moderno não nos ensina o valor do sofrimento. Ao contrário, escolas, grande parte da mídia, muitos pais de família, o capitalismo selvagem, a psicanálise freudiana, entre outros, acabam disseminando a ideia de que devemos fugir do sofrimento ou escondê-lo por detrás das aparências. Motivados pela busca do prazer, criam meios de esmagar a dor a todo custo, e até criam mecanismos para desfrutar prazer através do sofrimento; são os chamados distúrbios sexuais, como exemplos o masoquismo (prazer em apanhar) e o sadismo (prazer em agredir).
Não estaríamos também nós cristãos invertendo a função do sofrimento? Quantos de nós não se encontram em depressão quando passam por situações de sofrimento, seja sofrimento físico, psicológico ou até mesmo financeiro? Quantos religiosos e religiosas fogem das dores da vocação por não entenderem os mistérios do sofrimento? Quantos desejam ressuscitar com Cristo, mas não querem passar pela coroa de espinhos ou pelo madeiro da cruz?
O contrário também é verdadeiro: Quantos cristãos não acreditam que tem que aguentar situações de sofrimento sem, contudo, lutar para resolver o problema? Quantos maridos fazem as suas mulheres aguentarem seus vícios com a desculpa de que elas têm que suportá-los? E quantas mulheres não acreditam nisto? No entanto, é importante entender que tipo de sofrimento faz parte da vontade de Deus.
São muitas as perguntas, às quais cada um pode responder desde que encare com dignidade o sofrimento, evitando a dor desnecessária através de ações concretas, objetivas e animadas pela misericórdia, e aceitando a dor oportuna diante de situações que não podemos mudar, descobrindo nelas outras possibilidades, que somente o sofrimento poderia oferecer.
SAÚDE E PAZ.
*É Psicólogo

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