quinta-feira, 15 de março de 2012

O SENTIDO DA ANGÚSTIA

O sentido da angústia

 *Gilvan Melo


Na semana passada refletimos sobre o “sentido da solidão”, sugerindo que é possível a vivência de uma solidão necessária ao encontro conosco mesmo, com os outros e com Deus. Pois bem, hoje pensamos o sentimento da angústia sob dois aspectos: a angústia enquanto sensação de um perigo próximo e a angústia como apelo existencial necessário à busca pelo sentido da vida.
Duas visões, duas possibilidades onde podemos escolher qual das duas aceitamos. Não nos enganemos que o sentimento da angústia causa em cada um de nós, muitas vezes, uma dor no peito, quase palpitante, dor, medo, uma sensação de que algo misterioso pode acontecer. É como se caminhássemos a fio em direção a um abismo, e não podemos parar porque uma fera pode nos engolir. Não! Não existe abismo, tampouco a fera, mas um sentimento assustador nos persegue. Um dos nomes desta angústia é a síndrome do pânico, cujo instrumento do medo não passa de algo invisível, seja um ladrão, uma fera ou mesmo a morte.
Esta angústia na qual chamo a refletir hoje parece nos paralisar, perder o encanto em relação à vida, não nos permite alçar vôos nem mesmo caminhar em direção ao inesperado. “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46); “Minha alma está triste até a morte.” (Mt 26, 38); são alguns dos momentos em que o próprio Jesus experimentou o sentimento da angústia. Veja, nem mesmo o Cristo escapou! Creio, uma demonstração de que dela - a angústia – podemos extrair um sentido. Que sentido seria este?
Para a logoterapia, a psicoterapia que nos ajuda a encontrar o sentido da vida, entende que é a angústia o sentimento primordial da busca pelo sentido, sobretudo a angústia em relação ao tempo e à morte. É como se tivéssemos a sensação de que temos que correr, temos que viver, porque se não o fizermos, poderemos não ter tempo para realizar o que desejamos fazer. Às vezes também sentimos angústia porque não percebemos que é ela própria quem ensaia a dor necessária que se aproxima, o sofrimento redentor, aquele sofrimento através do qual nos sentimos impelidos a tomar uma decisão ou a encontrar o caminho que por ora se perdeu.
Sim! é esta angústia que antecipa a ferida que sentiremos antes da páscoa que virá, a dor dos espinhos antes do derramamento de sangue redentor. “Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres.” (Mt 26, 39). Segue Jesus interrogando por três vezes por que nem mesmo Ele escapou do sentimento da angústia, mas também segue Ele entendendo o seu efeito: “que seja feita a tua vontade!” (Mt 26, 42).
Não quero afirmar que somente através da angústia é que vamos fazer a vontade de Deus ou encontrar o sentido da vida, mas, pelo exemplo do Cristo e, seguindo o modelo da logoterapia, compreendo que a ela, aparentemente um sentimento negativo, podemos transcender e ainda perceber o verdadeiro caminho da salvação, caminho de provação, caro aos heróis, caminho de redenção, imprescindível na vida dos santos e santas da nossa igreja católica.
Que nesta quaresma, possamos compreender este mistério: se a angústia pode nos paralisar diante do sofrimento, também ela pode nos mobilizar a encontrar o sentido da vida. E que todas as vezes em que nos sentimos angustiados, entendamos que repousa sobre nós a força do Espírito Santo, que nos fará superar os obstáculos, visíveis e invisíveis que se apresentam em nossos caminhos.

SAÚDE E PAZ.

*Gilvan Melo, é Psicólogo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário