quinta-feira, 29 de março de 2012

" O SENTIDO DA CULPA"


*Gilvan Melo

Neste tempo de quaresma é providencial mergulharmos na pequenez da existência humana. Pensar, mesmo que por um instante, que somos fracos, orgulhosos, prepotentes, invejosos e marcados pelo pecado original. Com semelhante grau de importância também devemos esperar que a misericórdia divina nos envolva e nos faça puros de coração. Ora, se temos na origem da criação a marca do pecado, também temos as marcas da culpa, uma culpa original.
Mesmo uma criança de alguns meses de idade experimenta a culpa e pecado na carne, ao sentir ciúme de seus irmãos e crianças que se aproximam de sua mãe, dizia Santo Agostinho. É lógico assim constatar que o sentimento da culpa é uma espécie de herança mítica dos que a nós antecederam. Compartilha também desta reflexão agostiniana, a psicologia da existência a qual afirma existir uma “culpa essencial que permanece até a morte.” Somos culpados, carregamos a culpa, é uma condição de todos nós pecadores. Porém, feio não é pecar, mas não fugir dele, não acreditando na infinita capacidade do perdão de Deus. “Pai, pequei contra o Céu e contra ti” (LC 15, 18) disse o filho mais novo da parábola do “filho pródigo”, recebendo, tão logo se arrependeu, abraços e beijos do pai que, prontamente, compreendeu que seu filho pecador voltou a viver (LC 15, 32). Vivenciar a culpa é isto: morrer com o pecado e reviver com a misericórdia do Pai.
Seria este o sentido da culpa? Fazer-nos necessitar e acreditar no perdão de Deus? Do ponto de vista espiritual penso que sim. Do ponto de vista psicológico seria aceitar conviver com a sua sombra, quebrando em nós toda espécie de prepotência, aceitando, com humildade, a condição de “filho pródigo pecador”, em igual condição a todo ser humano. Aceitar também a culpa em nossa vida nos faz compreender que muito do vazio existencial que nos afeta, nada mais é do que manifestações desta culpa e da angústia que por ora nos perseguem.
Como então encontrar o sentido diante deste vazio? por meio duas maneiras: para superar a angústia original – da morte e do tempo – devemos realizar valores criativos através, por exemplo, de atividades físicas, de estudos e trabalhos relacionados à nossa vocação e missão; bem como realizar valores vivenciais doando-nos a algo ou a alguém, amando autenticamente as pessoas, contemplando artes que nos ponha em harmonia com a natureza e com Deus, enfim. Para superar a culpa não nos é saudável fugir dela, mas dela se retratar, através da realização de valores de atitude, tais como compensar o orgulho com a humildade, a luxuria com o desapego, a maldade com o amor. Para dar um exemplo concreto lembro-me de uma mãe que, antes de conhecer o posicionamento da igreja católica em favor da vida, praticou o aborto. Não podendo mais ter outro filho e acometida de um sentimento imperdoável de culpa (ela não se perdoava, apesar de Deus já a ter perdoado em confissão) o que fez ela então? resolveu adotar uma criança da mesma idade de seu filho abortado.
Portanto, não fugindo da culpa, não pretendo afirmar que devemos nos sentir sempre culpados por algo ou por alguém, isto não seria sadio, porém se cometemos um ato e este nos acusa constantemente e nos põe mergulhados num sentimento de desespero, não nos esqueçamos: um Pai amoroso nos espera para inibir o nosso discurso de perdedor, nos abraça e nos beija, pois mais do que nós Ele sabe que onde há culpa há a conscientização do pecado, e se depois disto nos arrependermos, provaremos o sabor da graça do Seu perdão e se ainda mais nos retratarmos através de um ato concreto de arrependimento, transformaremos a culpa em um instrumento de reconciliação conosco mesmos, com Deus e com toda a humanidade.
SAÚDE E PAZ.

*É Psicólogo  


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