O Poder da responsabilidade
“Então, erguendo-se,
Jesus lhe disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Disse ela:
“Ninguém, Senhor”. Disse, então, Jesus: “Nem eu te condeno. Vai, e de agora em
diante, não peques mais” (Jo 8, 10-11). É assim que o evangelho de São João
conclui uma das passagens bíblicas mais belas do novo testamento, onde Jesus
desafia o machismo, a lei de Moisés e a dureza de uma sociedade sem misericórdia
na qual vivia aquela mulher conhecida como a “mulher adúltera”. Mas, o que esta
passagem tem a ver com o tema de hoje?
Segundo a Logoterapia, a
palavra responsabilidade significa “habilidade de responder.” Responder aos
questionamentos da vida diante de uma gama de possibilidades que a vida
oferece. Responder com consciência e capacidade de decisão. Voltando ao exemplo
da mulher adúltera, percebemos que Jesus, além de perdoá-la, não se rendeu a
acusações frias nem à falsa moral da sociedade da época, mas, agindo com
educação, apelou para que a pecadora respondesse de forma diferente diante da
situação em que se encontrava. Jesus não negou o seu pecado, mas, ao contrário
dos homens que ali se encontrava, incitou a todos a responder com dignidade e
misericórdia. “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar
uma pedra!” (Jo 8, 7). Depois: “Vai, e de agora em diante, não peques mais” (Jo
8, 11). Entendamos que no processo de cura, seja uma cura física ou uma cura
interior, não basta o perdão dos pecados por parte de Deus, mas também a
responsabilidade de sair da situação de pecado com a decisão de não desejar
pecar mais, mesmo sabendo que o grau de ausência de pecado nos é impossível.
A didática de Cristo é
semelhante a da Análise Existencial. Não somos livres de alguns determinismos
da vida (um destes determinismos é a condição de pecador), mas somos livres
para nos posicionarmos diferente diante desses determinismos. E quem nos dá a
possibilidade de nos posicionarmos diferente diante da culpa, do pecado, da
dor, do sofrimento, da morte, enfim, é a capacidade que somente o ser humano a
tem: a capacidade de decidir que caminho seguir, o que traduz a forma como
respondemos diante dessas situações que muitas vezes fazem parte do destino.
Na experiência com dependentes
químicos, moradores de rua e pacientes depressivos, tenho observado que o maior
problema por eles enfrentado é a incapacidade de responder ao mundo. São, em
sua maioria, “joguetes do destino”, alienados pelas tramas da vida, objetos
passivos condicionados pelos determinismos psicológicos e sociais. Infelizmente
alguns entregam-se às drogas, aceitam os sintomas a eles dados, sem contudo
lutarem para darem uma nova resposta, primeiramente a si mesmos, e depois à
sociedade. De forma semelhante algumas pessoas, quando muito, buscam nas
igrejas pentecostais a cura para sua alma, alienando-se e entregando o seu
destino a falsos profetas que oferecem cura a troco de total submissão a eles.
Homens e mulheres que se dizem curados pela fé, mas que não respondem diferente
aos problemas que passam, vivem à sombra de eventos que prometem cura, quando,
na verdade, tais eventos não costumam ensinar que conscientizar-se e se
responsabilizar-se dos sofrimentos vividos é uma tarefa pessoal, única e intransferível.
Caro ouvinte (leitor),
entenda bem: não quero afirmar que não existem curas, como também movimentos
pentecostais não alienantes, tampouco não nego jamais que Jesus está vivo e
pode nos curar nos dias atuais, porém é preciso entendermos que a cura de
alguém deve servir para que esse alguém melhore a sua família, a comunidade em
que participa ou a sociedade em que vive. Tenho convicção de que é desta
resposta, a partir da cura, que todos nós precisamos.
A TODOS SAÚDE E PAZ.
Psicólogo Gilvan Melo

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