O sentido da festa
Psicólogo Gilvan Melo
Celebrar: eis o sentido
da festa. Sempre foi assim, povos antigos se reuniam para celebrar a hora da colheita,
o sucesso da caça, o nascimento de um filho ou a morte de um guerreiro.
Festejar fazia parte de um ritual cuja função extrapolava a mera comemoração;
também tinha a função de perpetuar o momento, ecoar na memória da comunidade
aquele instante especial. Festejar não se resumia em bebedeiras e comilanças, e
nem sempre fora instrumento de orgias e bacanais (existia em homenagens ao deus
grego bacon), mas em maior escala, possuía o sentido místico ou religioso de
sacralizar a vitória.
Nós brasileiros certamente
herdamos o espírito de festa dos nossos ancestrais índios e negros. Os índios Tupis,
Tapuias, Tupinambás, Potiguaras e tantos outros, transformaram em festa dezenas
de momentos vivenciados em suas aldeias; seus rituais de nascimento, de
passagens ou de morte até hoje reverberam em algumas culturas brasileiras que
preservam o “núcleo duro” dessas celebrações. Entre
os Tupinambás - grupo indígena extinto que habitava no litoral paulista-,
quando nascia uma criança do sexo masculino, o pai levantava-se do chão e
cortava-lhe o umbigo com os dentes. (Cf: http://www.museudoindio.org.br.Acesso
em 04 de julho de 2012). Ligado a um costume africano, “beber o morto” é
ainda hoje visto no interior da Paraíba e da Bahia. Também as festas de
iemanjá, tão badaladas no sul do país, foram marcas deixadas pelos
afro-brasileiros. Da mesma forma, festas de São Cosme e Damião no nordeste
ainda hoje são vivenciadas por comunidades religiosas no nordeste
brasileiro.
Uma festa é marcada pela
arte, seja arte culinária ou arte propriamente dita: dança, música, artesanato,
teatro, etc. Quem poderia imaginar, por exemplo, o “Maior São João do Mundo”, em
Campina Grande, sem canjica, pamonha, milho assado ou cozido, pé de moleque;
sem forró, sem quadrilhas, sem o trio pé de serra, sem Luiz Gonzaga, o “Rei do
Baião”?
Há alguns dias do final
desta que é considerada a maior festa popular do Brasil, o São João, podemos
constatar que nada é tão bela quanto a participação do povo nas mais variadas
representações: povo rico, povo pobre, negros, brancos, pessoas do Sul, do
Norte, do Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste, entrançaram-se no Parque do Povo e
eles – sim! eles e nós – fizemos a festa acontecer. Fomos o público sem o qual
não haveria festa. Celebramos ou fizemos perpetuar o tempo de chuva, a colheita
do milho, a vida dos Santos padroeiros: São João, São Pedro, São Paulo e Santo
Antônio.
Claro que muitos sequer
entenderam o sentido da festa, apenas “encheram a cara” de cachaça, praticaram
sexo irresponsável, agrediram pessoas ou transformaram a festa em atos de
vandalismo.
Felizes foram aqueles que
acenderam a sua fogueira em clima de família, mataram a saudade de filhos e
netos que vieram à Campina Grande, contemplaram cidades cenográficas, sítios, feiras,
que representaram a cultura popular nordestina; assistiram aos shows, dançaram
nas palhoças, em intenso clima de comunidade: comunidade que soube brincar,
confraternizar-se e manter a memória desta festa linda chamada “São João”.
Até o próximo ano, se
Deus quiser.

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