segunda-feira, 6 de agosto de 2012

CIÚME



 O sentido da festa
Psicólogo Gilvan Melo


Celebrar: eis o sentido da festa. Sempre foi assim, povos antigos se reuniam para celebrar a hora da colheita, o sucesso da caça, o nascimento de um filho ou a morte de um guerreiro. Festejar fazia parte de um ritual cuja função extrapolava a mera comemoração; também tinha a função de perpetuar o momento, ecoar na memória da comunidade aquele instante especial. Festejar não se resumia em bebedeiras e comilanças, e nem sempre fora instrumento de orgias e bacanais (existia em homenagens ao deus grego bacon), mas em maior escala, possuía o sentido místico ou religioso de sacralizar a vitória.
Nós brasileiros certamente herdamos o espírito de festa dos nossos ancestrais índios e negros. Os índios Tupis, Tapuias, Tupinambás, Potiguaras e tantos outros, transformaram em festa dezenas de momentos vivenciados em suas aldeias; seus rituais de nascimento, de passagens ou de morte até hoje reverberam em algumas culturas brasileiras que preservam o “núcleo duro” dessas celebrações. Entre os Tupinambás - grupo indígena extinto que habitava no litoral paulista-, quando nascia uma criança do sexo masculino, o pai levantava-se do chão e cortava-lhe o umbigo com os dentes. (Cf: http://www.museudoindio.org.br.Acesso em 04 de julho de 2012). Ligado a um costume africano, “beber o morto” é ainda hoje visto no interior da Paraíba e da Bahia. Também as festas de iemanjá, tão badaladas no sul do país, foram marcas deixadas pelos afro-brasileiros. Da mesma forma, festas de São Cosme e Damião no nordeste ainda hoje são vivenciadas por comunidades religiosas no nordeste brasileiro. 
Uma festa é marcada pela arte, seja arte culinária ou arte propriamente dita: dança, música, artesanato, teatro, etc. Quem poderia imaginar, por exemplo, o “Maior São João do Mundo”, em Campina Grande, sem canjica, pamonha, milho assado ou cozido, pé de moleque; sem forró, sem quadrilhas, sem o trio pé de serra, sem Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”?
Há alguns dias do final desta que é considerada a maior festa popular do Brasil, o São João, podemos constatar que nada é tão bela quanto a participação do povo nas mais variadas representações: povo rico, povo pobre, negros, brancos, pessoas do Sul, do Norte, do Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste, entrançaram-se no Parque do Povo e eles – sim! eles e nós – fizemos a festa acontecer. Fomos o público sem o qual não haveria festa. Celebramos ou fizemos perpetuar o tempo de chuva, a colheita do milho, a vida dos Santos padroeiros: São João, São Pedro, São Paulo e Santo Antônio.
Claro que muitos sequer entenderam o sentido da festa, apenas “encheram a cara” de cachaça, praticaram sexo irresponsável, agrediram pessoas ou transformaram a festa em atos de vandalismo.
Felizes foram aqueles que acenderam a sua fogueira em clima de família, mataram a saudade de filhos e netos que vieram à Campina Grande, contemplaram cidades cenográficas, sítios, feiras, que representaram a cultura popular nordestina; assistiram aos shows, dançaram nas palhoças, em intenso clima de comunidade: comunidade que soube brincar, confraternizar-se e manter a memória desta festa linda chamada “São João”.

Até o próximo ano, se Deus quiser.

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