O sentido do trabalho
Psicólogo Gilvan Melo
Ontem comemoramos o dia do trabalho. Para muitos não há motivos para se
comemorar, uma vez que o desemprego é a maior das evidências neste dia. Inspirado
em 03 de maio de 1886 nos Estados Unidos da América, após greve de
trabalhadores em prol da jornada de trabalho de oito horas, países como a
França, Portugal e Brasil mesclam protestos e festas no dia do trabalho. No
Brasil, o 1° de maio tornou-se feriado a partir de 1895. Referindo-se este dia
ao trabalho de base capitalista, caracterizado pela divisão entre patrões e
empregados, salários, lucros, exploração, nem sempre foi assim.
Antes do capitalismo, no período ainda feudal, o artesanato, diferente da
serialização do produto industrializado, era considerado uma terapia.
Semelhante à obra da criação do mundo, cada peça fabricada à mão era a marca da
pessoa que a criou. Trocada por outra peça, e não vendida como é hoje, cada
artista/trabalhador se percebia na obra e transmitia, através dela, um pouco de
si. Tal como afirmou Karl Marx, esta distância entre o técnico e a mercadoria,
bem como a usura do lucro, são as marcas indeléveis do capitalismo selvagem.
Diante disto, como encontrar sentido naquilo que fazemos? Como perceber-se e
ser percebido no trabalho que executamos? Mais profundo ainda: como conciliar
profissão e vocação num sistema que destaca a técnica (o fazer) e o lucro (o
ter) em detrimento dos dons (o saber fazer) de cada um, da realização pessoal (o
ser) e da melhoria da qualidade de vida da comunidade?
A logoterapia aponta alguns caminhos. Em primeiro lugar devemos tomar
consciência de alguns dos sintomas neuróticos oriundos da produção capitalista
na sociedade, a exemplo, a compulsão do workaholic
e o vazio existencial da neurose do desemprego e da neurose dominical. O workaholic, ou o viciado em trabalho, faz de suas atividades um fim em si
mesmo, perdendo de vista o bem comum; almeja a perfeição neurótica, o elogio
dos superiores e o reconhecimento dos subordinados. A neurose do desemprego,
dos quais são possíveis portadores cerca de 1,5 milhão de brasileiros (Cf:
IBGE, março de 2012), advém do vazio existencial em decorrência da falta de
emprego formal no mercado de trabalho. Para aqueles que possuem atividade
remunerada, Viktor Frankl alerta para o perigo do mesmo vazio proveniente da
ausência de trabalho nos finais de semana, tempo em que muitos deixam de
praticar o lazer sadio (encontros familiares, esporte, viagens) para “encherem
a cara” nos bares ou se entorpecerem nas drogas, em jogos de azar ou no sexo
livre de compromissos.
Após tomar consciência destes e outros sintomas, podemos extingui-los
através de atividades, formais ou não, que dêem sentido às nossas vidas. Se
estamos nos tornando ou somos um workaholic, devemos tomar algumas atitudes: não
levar trabalho para casa, não esperar elogios ou reconhecimentos de ninguém, porém
visar o bem-estar coletivo daqueles que usufruíram do nosso trabalho; devemos
também aproveitar o lazer para estar com a família ou realizar atividades
diferentes da nossa função no trabalho. Se o desemprego bater à nossa porta,
não devemos nos desesperar, mas realizar atividades filantrópicas que nos
realizem como pessoas e evidenciem os nossos dons; planejar, a curto, médio ou
longo prazo, ações visando a conquista de um emprego, tais como: cursos,
capacitações, estágios, mesmo gratuitos, em instituições estatais ou ONGs. Para
os neuróticos dominicais importante é refletir até que ponto o seu emprego lhe
satisfaz como pessoa ou encobre um vazio presente em sua vida; deve assim dar um
novo sentido ao seu trabalho ou buscar outro que melhor se adéque à sua
personalidade, consequentemente deve também encontrar novas e mais sadias
maneiras de se divertir.
Em suma, para que descubramos o sentido do trabalho é essencial encontrarmos
o caráter de missão na profissão ou quaisquer atividades que executemos, pois o
ato criativo nunca deve desaparecer na vida de cada um de nós. Além do mais, sendo
únicos e irrepetíveis como afirma a logoterapia, faremos do trabalho uma forma
digna de transformar o mundo, através do que fazemos e do que somos.
Psicólogo Gilvan Melo

Nenhum comentário:
Postar um comentário