quinta-feira, 3 de maio de 2012

O SENTIDO DO TRABALHO


 O sentido do trabalho
Psicólogo Gilvan Melo

Ontem comemoramos o dia do trabalho. Para muitos não há motivos para se comemorar, uma vez que o desemprego é a maior das evidências neste dia. Inspirado em 03 de maio de 1886 nos Estados Unidos da América, após greve de trabalhadores em prol da jornada de trabalho de oito horas, países como a França, Portugal e Brasil mesclam protestos e festas no dia do trabalho. No Brasil, o 1° de maio tornou-se feriado a partir de 1895. Referindo-se este dia ao trabalho de base capitalista, caracterizado pela divisão entre patrões e empregados, salários, lucros, exploração, nem sempre foi assim.
Antes do capitalismo, no período ainda feudal, o artesanato, diferente da serialização do produto industrializado, era considerado uma terapia. Semelhante à obra da criação do mundo, cada peça fabricada à mão era a marca da pessoa que a criou. Trocada por outra peça, e não vendida como é hoje, cada artista/trabalhador se percebia na obra e transmitia, através dela, um pouco de si. Tal como afirmou Karl Marx, esta distância entre o técnico e a mercadoria, bem como a usura do lucro, são as marcas indeléveis do capitalismo selvagem. Diante disto, como encontrar sentido naquilo que fazemos? Como perceber-se e ser percebido no trabalho que executamos? Mais profundo ainda: como conciliar profissão e vocação num sistema que destaca a técnica (o fazer) e o lucro (o ter) em detrimento dos dons (o saber fazer) de cada um, da realização pessoal (o ser) e da melhoria da qualidade de vida da comunidade?
A logoterapia aponta alguns caminhos. Em primeiro lugar devemos tomar consciência de alguns dos sintomas neuróticos oriundos da produção capitalista na sociedade, a exemplo, a compulsão do workaholic e o vazio existencial da neurose do desemprego e da neurose dominical. O workaholic, ou o viciado em trabalho, faz de suas atividades um fim em si mesmo, perdendo de vista o bem comum; almeja a perfeição neurótica, o elogio dos superiores e o reconhecimento dos subordinados. A neurose do desemprego, dos quais são possíveis portadores cerca de 1,5 milhão de brasileiros (Cf: IBGE, março de 2012), advém do vazio existencial em decorrência da falta de emprego formal no mercado de trabalho. Para aqueles que possuem atividade remunerada, Viktor Frankl alerta para o perigo do mesmo vazio proveniente da ausência de trabalho nos finais de semana, tempo em que muitos deixam de praticar o lazer sadio (encontros familiares, esporte, viagens) para “encherem a cara” nos bares ou se entorpecerem nas drogas, em jogos de azar ou no sexo livre de compromissos.
Após tomar consciência destes e outros sintomas, podemos extingui-los através de atividades, formais ou não, que dêem sentido às nossas vidas. Se estamos nos tornando ou somos um workaholic, devemos tomar algumas atitudes: não levar trabalho para casa, não esperar elogios ou reconhecimentos de ninguém, porém visar o bem-estar coletivo daqueles que usufruíram do nosso trabalho; devemos também aproveitar o lazer para estar com a família ou realizar atividades diferentes da nossa função no trabalho. Se o desemprego bater à nossa porta, não devemos nos desesperar, mas realizar atividades filantrópicas que nos realizem como pessoas e evidenciem os nossos dons; planejar, a curto, médio ou longo prazo, ações visando a conquista de um emprego, tais como: cursos, capacitações, estágios, mesmo gratuitos, em instituições estatais ou ONGs. Para os neuróticos dominicais importante é refletir até que ponto o seu emprego lhe satisfaz como pessoa ou encobre um vazio presente em sua vida; deve assim dar um novo sentido ao seu trabalho ou buscar outro que melhor se adéque à sua personalidade, consequentemente deve também encontrar novas e mais sadias maneiras de se divertir.
Em suma, para que descubramos o sentido do trabalho é essencial encontrarmos o caráter de missão na profissão ou quaisquer atividades que executemos, pois o ato criativo nunca deve desaparecer na vida de cada um de nós. Além do mais, sendo únicos e irrepetíveis como afirma a logoterapia, faremos do trabalho uma forma digna de transformar o mundo, através do que fazemos e do que somos.

Psicólogo Gilvan Melo


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