O sentido da vida
Psicólogo Gilvan Melo
“Hoje é páscoa porque
tenho a graça de te ver”. Eleva-se a oração de São Bento após alguns dias de
exílio espiritual. Estas palavras expressam bem o sentido da páscoa: enxergar o
outro, abrir-nos a Deus e através desta abertura, encontrar-nos a nós mesmos. A
partir do último domingo de páscoa serão cinquenta dias de vida nova até a
festa de pentecostes, o completo derramamento do Espírito Santo no seio da
igreja. Mas por que muita gente, incluindo muitos que se dizem cristãos, mesmo
no período da páscoa, não saem da agonia do horto das oliveiras? Quantos de nós
ainda não enxergamos o sentido da vida, mesmo com o exemplo de despojamento e
Amor do Cristo?
Quem vem acompanhando
este quadro desde o início deve ter percebido que seguimos uma trilha
percorrida pelo mesmo trajeto de Jesus Cristo antes da morte e ressurreição: Da
solidão e angústia do horto, passamos pelo sofrimento, paixão e morte,
atravessados pelo sentimento de culpa dos que o acusaram ou o abandonaram. Hoje
contemplamos como os discípulos de Emaús que não está mais entre os mortos
aquele que ressuscitou. Ultrapassou a morte aquele que é o caminho, a verdade e
a vida. Venceu o pecado quem não o teve. Aos que morriam de fome, o pão da vida
os saciou.
Até aí tudo bem, até
entendemos o percurso e o exemplo de Cristo Jesus, mas em nossas existências,
como perceber o sentido da vida?
Mais uma vez recorremos à
Logoterapia. Para Viktor Frankl, o seu fundador, existem três maneiras de
encontrarmos o sentido da vida: Através do que fazemos, incluindo a nossa
vocação, missão, profissão, atividades em geral; através das experiências que
temos com as pessoas, com Deus e com a natureza, sejam vivências no campo
estético ou religioso; por fim, através da atitude que tomamos diante do
inevitável: a culpa, a morte e o sofrimento.
Diante destas pistas
apresentadas por Frankl, pergunto: somos realizados naquilo que fazemos, na
profissão que escolhemos, na vocação que abraçamos? Vivemos junto das pessoas
que gostamos, sem interesse algum pelo que elas têm ou pelo que elas nos trazem
de retorno? Amamos a Deus e os outros sem nada querermos em troca, senão pela
companhia ou pela simples amizade? Continuamos íntegros e felizes mesmo diante
de situações adversas tais como doenças, morte de alguém querido ou perante
nossos erros passados?
Não se trata de um teste
matemático para sabermos se enxergamos ou não o sentido da vida, mas de compreendermos,
didaticamente, o grau de realização por nós vivenciado. Importante destacar que
não está dentro de nós o sentido, tampouco podemos nós mesmos atribuir sentido
em cada momento da vida, mas se trata de percebermos este sentido em cada
situação; e mais do que isto: enxergar o sentido além de cada situação: um
sentido último, um supra-sentido, o próprio Deus.
Se antes dissemos que o
“sentido da morte é dar sentido à vida”, hoje concluímos que o sentido da vida
é transcender a morte, consumindo-nos e até sofrendo, por Amor a Deus e aos outros.
“Hoje é Páscoa porque
tenho a graça de te ver.”

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