domingo, 8 de abril de 2012

O SENTIDO DA MORTE




Psicólogo Gilvan Melo

Na próxima sexta-feira celebraremos a crucifixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Católicos do mundo inteiro relembram e atualizam o mistério da cruz, símbolo outrora de morte e que, com a ressurreição de Cristo no domingo de páscoa, tornou-se um sacramento da vida. Se na sexta mergulhamos e aceitamos a morte de Cristo, pergunto como encaramos a nossa própria morte e a morte dos nossos entes queridos? Como justificar o medo da morte por parte de nós ocidentais? Por que razão não compreendemos o sentido da morte?
Como uma simples vela que se consome para brilhar os que dela se aproximam, e como a sombra de uma árvore frondosa que torra diante do sol para exalar ar puro aos pássaros e pessoas que a acaricia, também deveríamos entender que viver é morrer a cada instante. E que “quem tem medo de morrer, tem, na verdade, medo de viver”, tal como afirmou Viktor Emil Frankl, o fundador da Logoterapia e Análise Existencial.
O que hoje volto a refletir é que, da mesma maneira que descobrimos o sentido da culpa e do sofrimento, podemos também perceber o significado da morte. Filósofos do século XIX e século XX, tais como Heidegger, Shopenhauer e Boss, ao tentarem compreender o fenômeno da existência, chegaram à conclusão de que a morte e o tempo são os principais provocadores da “angústia essencial” que tanto incomoda quanto instiga a pessoa humana a buscar sentido em todas as coisas. Diferente dos animais irracionais, o homem e a mulher possuem a consciência de sua finitude, fazendo da vida uma tentativa frustrada de vencer a morte, sem que para isto não tenha o tempo necessário, definido ou previsível da vitória ou derrota.
Segundo o antropólogo francês Gilbert Durand existem três formas do ser humano lidar com a morte. A primeira é lutando contra ela através de armas simbólicas, seja uma lança, uma espada ou uma fecha, tal como o imaginário do herói que nos é a grande inspiração. Quem não se lembra da lança de São Jorge? A segunda forma é tratando a morte como uma amiga ou irmã, aproximando-nos dela ou a engolindo simbolicamente, tais como os exemplos do profeta Jonas e de São Francisco de Assis. A terceira maneira de nos lidar com a morte é transcendê-la, seja literalmente como assim fez, e unicamente fez, Jesus Cristo, seja metaforicamente como fazemos cada um de nós quando damos um sentido a ela.
Em suma, se hoje nos perguntarem: afinal, que sentido tem a morte? a Logoterapia poderia dar a resposta: “o sentido da morte é dar sentido à vida”, pois não fosse ela adiaríamos as nossas ações, as nossas vontades, a nossa missão, enfim, deixaríamos para o amanhã o que deságua no presente de nossa existência.
O apóstolo Paulo está absolutamente certo: “se Cristo não tivesse ressuscitado vã seria a nossa fé” (1 Cor 15, 14). Completo: se Cristo não tivesse ressuscitado, que sentido teria a morte? É porque Ele ressuscitou que nesta sexta-feira santa confessamos os nossos pecados, trilhamos os caminhos da via-sacra e beijamos a cruz, principal símbolo da vitória da vida sobre a morte.

A todos,

SAÚDE E PAZ.

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