terça-feira, 16 de outubro de 2012

EM BUSCA DE SENTIDO



A palavra falada



Num tempo em que celebramos a palavra de Deus posta nas escrituras sagradas, nada mais oportuno do que refletirmos sobre a importância da palavra em nosso meio. Sendo a palavra manifestada pela fala ou por um texto, comumente costumamos dividi-la em: palavra falada e palavra escrita. Hoje me proponho a apresentar a palavra falada.
Primeiramente quando falamos de palavra falada, cujo veículo de comunicação é a voz, é importante compreendermos as nuances desta voz, ou seja, percebermos sua carga afetiva, em que tom, volume, intensidade e contexto ela é proferida. Por exemplo, imagina-se que a voz de um pai compreensivo para com seu filho que vive um momento de aflição, seja uma expressão de carinho, possua um tom amigável, volume e intensidade normais. Ao contrário, a voz de um pai incompreensivo num mesmo contexto de aflição de seu filho, imagina-se ser uma voz em tom agressivo, volume alto e de forte intensidade.
O poeta, romancista e medievalista suíço Paul Zumthor diz que “a voz é uma extensão do corpo.” Segundo o estudioso, é pela performance da voz que alguém se comunica, trazendo em sua expressão, linguística e corporal, os desejos mais contidos e a expressão mais explícita. Quando um filho escuta a voz de sua mãe, ele não costuma dizer: “escutei a voz da minha mãe”, mas diz com emoção: “minha mãe chegou”. A voz pode encantar como também pode paralisar alguém. Nós psicólogos, se queremos adentrar nos traumas de uma pessoa, para fazer dele emergir a cura, o fazemos reconhecendo vozes escondidas no interior da pessoa, digamos, vozes traumáticas, que contribuíram para que se instalasse no corpo do paciente comportamento semelhante à simbologia da palavra instalada. Desta forma, ao falarmos da palavra “amor”, alguém pode associar “amor” à “mágoa”. Ao falarmos “amigo”, desdobra-se uma outra palavra: “decepção”. Ao falarmos a palavra “sonho”, pode surgir no interior da pessoa a palavra desinibidora “conquista”. É assim mesmo: palavra puxa palavra, pois existem vozes caladas dentro de nós à espera de alguém ou de uma situação no presente que as puxe. Palavras paralisantes. Palavras libertadoras.
Nem sempre a voz expressa-se através do corpo. Às vezes um texto escrito traz também “indícios da voz”. Bom exemplo é a escritura sagrada, por onde a voz se manifesta assim que lemos alguns trechos. Quem, por exemplo, não imagina a carga afetiva, tons, intensidades e volumes no relato dos evangelistas ao descreverem a “ira santa” de Jesus ao ver comerciantes vendendo mercadorias no templo sagrado? Quem não imagina a voz piedosa do Cristo, perdoando àqueles que o puseram na cruz? Quem seria capaz de ler um salmo de Davi sem entoar poeticamente os seus versos?
A escritura sagrada é um texto que deve ser lido com o olhar e com o ouvido. Ela deve ser entendida com sensibilidade afetiva e histórica; deve ser apreendida como se alguém estivesse falando para nós. É verdade: Deus fala também para nós através dos textos sagrados, simplesmente porque existe uma voz que fala na escritura. Os textos bíblicos são oráculos de Deus, ou seja, respostas às nossas orações.
Portanto, ao ler hoje a palavra de Deus, saiba que uma voz ecoa de seus versos, de suas parábolas, de seus salmos. Fiquemos atentos às palavras ou à palavra que pode nos libertar, mas também paralisar.
Psicólogo Gilvan Melo



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