A palavra falada
Num tempo em que
celebramos a palavra de Deus posta nas escrituras sagradas, nada mais oportuno
do que refletirmos sobre a importância da palavra em nosso meio. Sendo a
palavra manifestada pela fala ou por um texto, comumente costumamos dividi-la
em: palavra falada e palavra escrita. Hoje me proponho a apresentar a palavra falada.
Primeiramente quando
falamos de palavra falada, cujo veículo de comunicação é a voz, é importante
compreendermos as nuances desta voz, ou seja, percebermos sua carga afetiva, em
que tom, volume, intensidade e contexto ela é proferida. Por exemplo, imagina-se
que a voz de um pai compreensivo para com seu filho que vive um momento de aflição,
seja uma expressão de carinho, possua um tom amigável, volume e intensidade
normais. Ao contrário, a voz de um pai incompreensivo num mesmo contexto de
aflição de seu filho, imagina-se ser uma voz em tom agressivo, volume alto e de
forte intensidade.
O poeta, romancista e
medievalista suíço Paul Zumthor diz que “a voz é uma extensão do corpo.”
Segundo o estudioso, é pela performance da voz que alguém se comunica, trazendo
em sua expressão, linguística e corporal, os desejos mais contidos e a expressão
mais explícita. Quando um filho escuta a voz de sua mãe, ele não costuma dizer:
“escutei a voz da minha mãe”, mas diz com emoção: “minha mãe chegou”. A voz pode
encantar como também pode paralisar alguém. Nós psicólogos, se queremos
adentrar nos traumas de uma pessoa, para fazer dele emergir a cura, o fazemos
reconhecendo vozes escondidas no interior da pessoa, digamos, vozes
traumáticas, que contribuíram para que se instalasse no corpo do paciente
comportamento semelhante à simbologia da palavra instalada. Desta forma, ao
falarmos da palavra “amor”, alguém pode associar “amor” à “mágoa”. Ao falarmos
“amigo”, desdobra-se uma outra palavra: “decepção”. Ao falarmos a palavra
“sonho”, pode surgir no interior da pessoa a palavra desinibidora “conquista”.
É assim mesmo: palavra puxa palavra, pois existem vozes caladas dentro de nós à
espera de alguém ou de uma situação no presente que as puxe. Palavras
paralisantes. Palavras libertadoras.
Nem sempre a voz
expressa-se através do corpo. Às vezes um texto escrito traz também “indícios
da voz”. Bom exemplo é a escritura sagrada, por onde a voz se manifesta assim
que lemos alguns trechos. Quem, por exemplo, não imagina a carga afetiva, tons,
intensidades e volumes no relato dos evangelistas ao descreverem a “ira santa”
de Jesus ao ver comerciantes vendendo mercadorias no templo sagrado? Quem não
imagina a voz piedosa do Cristo, perdoando àqueles que o puseram na cruz? Quem
seria capaz de ler um salmo de Davi sem entoar poeticamente os seus versos?
A escritura sagrada é um
texto que deve ser lido com o olhar e com o ouvido. Ela deve ser entendida com
sensibilidade afetiva e histórica; deve ser apreendida como se alguém estivesse
falando para nós. É verdade: Deus fala também para nós através dos textos
sagrados, simplesmente porque existe uma voz que fala na escritura. Os textos
bíblicos são oráculos de Deus, ou seja, respostas às nossas orações.
Portanto, ao ler hoje a
palavra de Deus, saiba que uma voz ecoa de seus versos, de suas parábolas, de seus
salmos. Fiquemos atentos às palavras ou à palavra que pode nos libertar, mas
também paralisar.
Psicólogo Gilvan Melo

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