FILOSOFANDO SOBRE A ARTE DA COMUNICAÇÃO
Por Gilvan Melo
A marca oficial da natureza é a capacidade de comunicar-se. Enquanto os
animais utilizam códigos pré-escritos em sua genética e possuem habitat comum
às suas espécies, a pessoa humana inventa seus códigos, signos, significados,
através de uma cultura construída historicamente.
Na arte de comunicar citada por Nietzsche espera-se que os sentidos
sobressaiam à palavra e à escrita, no entanto é ele mesmo quem diz que a boa
conversa é o maior signo de envolvimento, inclusive sugerindo o casamento entre
aqueles através dos quais a arte da comunicação tornou-se fecunda (Nietzsche
apud Dias, 1991). O que se constata hoje é que ainda com tantas mídias e formas
novas de se comunicar, as pessoas vivem distantes uma das outras. O mundo
globalizado e a “sociedade espetacular” (DEBORD, 1997) distancia a pessoa de
sua busca natural, que na concepção de Rousseau remete-se à necessidade de
liberdade, piedade e perfectibilidade, além da sociabilidade (Rousseau apud
BRAUNSTEIN, 1985). É lógico e inegável que a ideia aristotélica de homem
social, de homem que se comunica com um outro, é mais próxima da razão humana e
da sua diferença em relação aos animais; porém essa mesma comunicação
(tecnologizada, perpassada através das máquinas) tem causado a própria
distância entre os homens.
Utilizando-se desse pressuposto filosófico de que não vivemos isolados,
esta dita globalização nos torna indivíduos (aquele que não se divide), isolados
cada vez mais, e nos oferece, de consolo, o comércio do entretenimento,
sobretudo através da televisão[1].
Esta sociedade da técnica aposta tudo na sensação de incompletude do ser humano.
No entanto, estamos cada vez mais sós, muito mais que os bichos animais
perdidos e em extinção nas florestas.
Ao mesmo tempo em que afirmamos que somos um ser social, negamos a
capacidade de sentir o outro como pele a nós pertencentes; valorizamos palavras
e letras e esquecemos os sentidos. Somos seres isolados que precisam de
máquinas para nos unir, de salas virtuais para nos comunicar.
Será que não desaprendemos a ser gente? Gente que se comunica através do
olhar, do toque, do abraço e do aperto de mão?

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